A sensação de viver duas e três vidas numa só!

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Todos conhecemos aquelas pessoas que nos transmitem uma enorme segurança.

São pessoas estáveis, previsíveis, estão sempre lá, gostam das suas rotinas e raramente fazem grandes mudanças na vida.

São pessoas que transmitem paz, tranquilidade, segurança. Aquelas a quem normalmente recorremos quando estamos em crise. Porque, no meio do nosso caos, sabe tão bem encontrar alguém que parece ter sempre a resposta certa para nós, que nos transmite aquela sensação de que, afinal, tudo se há de resolver!

Normalmente, são pessoas que lidam muito bem com o mundo material. Sabem organizar, construir e preservar aquilo que conquistaram.

Mas há aqui uma questão.

O facto de saberem lidar tão bem com o plano material pode levá-las a afastarem-se, inconscientemente, do plano espiritual e a não compreenderem uma das dinâmicas mais importantes da nossa evolução: a mudança.

Porque evoluir implica mudar. E, frequentemente, para não dizer quase sempre, implica deitar abaixo, abandonar ou deixar para trás aquilo que levámos anos a construir.

E nem toda a gente está disposta a isso!

Na Astrologia Karmica, esta questão está muito bem representada pelo eixo dos Nodos Lunares.

O Nodo Sul representa aquilo que já conhecemos. O habitual, o familiar, a nossa zona de conforto.

São comportamentos, valores, competências e padrões que trazemos de outras vidas e que, muitas vezes, encontramos novamente representados na família onde nascemos.

É aquilo que para nós, é normal.

E, convenhamos, quem é que gosta de abandonar um território onde se sente seguro para se aventurar num caminho que não conhece?

É precisamente aí que entra o Nodo Norte!

O Nodo Norte representa aquilo que nos falta desenvolver. O caminho novo, as experiências desconhecidas, as competências que a nossa alma veio conquistar nesta encarnação.

E, curiosamente, encontra-se sempre no signo oposto ao Nodo Sul.

Ou seja, aquilo que precisamos de aprender está, muitas vezes, precisamente no lado contrário daquilo que nos é mais confortável.

E é aqui que muita gente fica presa.

Passa a vida inteira a repetir os mesmos padrões, a preservar as mesmas estruturas, a viver segundo os valores que recebeu da família, sem nunca se aventurar verdadeiramente fora daquilo que conhece.

Pode até construir uma vida materialmente muito bem-sucedida.

Mas, do ponto de vista evolutivo, corre o risco de chegar ao fim da encarnação sem ter desenvolvido e aprendido precisamente aquilo que veio aprender.

Porque não basta viver muitos anos. A proposta da vida implica evolução, novas aprendizagens e tal como numa escola, atingir um novo estágio.

Depois há o outro lado.

Sabes aquelas pessoas que parecem viver duas, três ou quatro vidas numa só? Que estão sempre em crise? que andam sempre em mudanças?

Se calhar és uma delas.

Já alguma vez olhaste para trás e sentiste que a pessoa que eras aos 15 anos já não existe?

E a pessoa que eras há 15 ou 20 anos?

Meu Deus, às vezes até parece que estamos a falar de outra encarnação!

Tinhas outros valores, outras prioridades, outros medos. Davas importância a coisas que hoje já não te dizem absolutamente nada.

Havia pessoas que tinham um enorme poder sobre ti e que hoje já não estão na tua vida ou já não têm qualquer influência sobre as tuas decisões.

Havia situações que aceitavas, relações que mantinhas e comportamentos que toleravas que hoje seriam absolutamente impensáveis.

Se já sentiste isto, parabéns! É sinal de que cresceste e evoluíste bastante!

E sim, estas pessoas vivem muitas vezes em permanente mudança.

Estão sempre envolvidas num qualquer reboliço. Uma crise, uma separação, uma mudança de casa, de emprego, de relação ou até de rumo de vida.

Mal parece que tudo acalmou, lá vem outra volta!

Podem não ter grande segurança, podem não ter estabilidade, podem até passar longos períodos sem conhecer a paz que tanto procuram.

Mas têm uma certeza: não ficaram no mesmo lugar nem são a mesma pessoa que eram.

Sabem o caminho que percorreram, aquilo que tiveram de enfrentar e quantos medos, inseguranças, dependências e ilusões foram deixando pelo caminho.

Sabem, sobretudo, que já não são a pessoa que eram há 20, 30, 40 ou 50 anos.

Não mudaram apenas de vida.

Mudaram de consciência. Amadureceram. Transformaram os seus medos e inseguranças em coragem, confiança e amor próprio.

E obviamente que esses valores têm um preço que, por vezes, é elevadíssimo.

Porque ninguém atravessa tantas transformações sem perder alguma coisa pelo caminho.

Relações que nos viraram do avesso. Desilusões que nos obrigaram a acordar. Perdas, ruturas e momentos em que tivemos de começar praticamente do zero.

E, claro, muito trabalho interior. Muito confronto connosco próprios. Muitas verdades difíceis de engolir.

Mais vezes do que o desejável vimos uma parte de nós morrer para que outra pudesse nascer.

E isso nem sempre é bonito.

Às vezes dói. Às vezes assusta. Às vezes parece que estamos a perder tudo.

Mas, passado algum tempo, olhamos para trás e sentimos alívio, sentimos orgulho e percebemos que já não conseguiríamos viver daquela maneira.

E há uma fase da vida em que tudo isto se torna particularmente evidente.

A chamada crise da meia-idade, especialmente entre os 35 e os 45 anos.

Na leitura astrológica, esta é uma fase marcada por importantes ciclos de transformação, em que somos confrontados com a distância entre a vida que construímos e aquilo que ainda precisamos de desenvolver.

É muitas vezes aqui que o Nodo Sul começa a ficar apertado.

A vida que conhecemos, as escolhas que fizemos, as relações que mantivemos e até a identidade que construímos tornam-se dolorosas e insuportáveis.

E aquilo que durante anos nos deu segurança começa a parecer uma prisão.

Se atravessamos esta fase sem uma transformação significativa, vale a pena perguntar se não estaremos a resistir precisamente às oportunidades de evolução que a vida nos está a oferecer.

Porque a crise da meia-idade não é apenas uma fase de insatisfação.

Ela tem como objectivo deixarmos de repetir o passado e começarmos finalmente a viver o nosso Nodo Norte.

E isso exige coragem.

Coragem para deixar de ser a pessoa que éramos e que os outros conheciam.

Para abandonar certezas.

Para contrariar expectativas.

Para aceitar que aquilo que nos serviu durante vinte anos pode já não ter qualquer lugar na nossa vida.

E aqui há uma coisa que acho particularmente interessante.

Fala-se muito da nostalgia do passado, das saudades de outros tempos, da vontade de voltar atrás.

Voltar atrás? Nem pensar!

Podemos ter saudades da juventude, mas não da ingenuidade com que vivíamos.

Podemos ter saudades da energia dos 20 anos, mas não da falta de amor-próprio, dos medos ou das dependências que tínhamos nessa altura.

E, sobretudo, não temos saudades de voltar a ser aquela pessoa.

Porque a pessoa que somos hoje foi conquistada.

Foi suada.

Custou-nos lágrimas, noites sem dormir, decisões dolorosas e, muitas vezes, sangue pelo caminho.

Trazemos cicatrizes, algumas para a vida inteira.

Pagámos um preço demasiado alto para querer voltar a ser quem éramos.

E atenção, mudar de vida não significa necessariamente evoluir.

Há quem mude de casa, de relação ou de emprego vinte vezes e continue a repetir exatamente os mesmos padrões.

A verdadeira transformação acontece quando deixamos de ser a pessoa que alimentava esses padrões.

Quando aquilo que antes nos dominava já não tem poder sobre nós.

Quando deixamos de procurar fora aquilo que aprendemos a encontrar dentro.

E talvez seja essa a grande diferença entre viver muitos anos e viver muitas vidas numa só.

Há pessoas que passam décadas a preservar a mesma identidade, as mesmas certezas, a mesma maneira de estar no mundo.

E há outras que, ao longo de uma única existência, têm a coragem de deixar morrer várias versões de si próprias.

Não porque gostem de sofrer ou de viver em crise, mas porque nasceram com o propósito de transformar tudo o deixou de corresponder à sua consciência.

E tu?

Quantas vidas já viveste nesta vida?

Quantas vezes morreste e renasceste nesta encarnação?

E, principalmente, já percebeste se estás a viver agarrado ao conforto do teu Nodo Sul ou se começaste verdadeiramente a caminhar em direção ao teu Nodo Norte?

É uma das questões mais interessantes que podemos explorar através do mapa natal. Porque compreender o nosso caminho evolutivo também nos ajuda a perceber porque é que determinadas experiências se repetem e porque é que, por vezes, a vida parece insistir tanto em empurrar-nos para aquilo que mais receamos.

Porque há pessoas que chegam ao fim da vida tendo vivido muitos anos. E há outras que, numa única existência, conseguiram viver várias vidas.

E talvez o maior desperdício de uma encarnação seja chegar ao fim dela sem nunca termos tido coragem de sair daquilo que já conhecíamos.

veraluz@veraluz.pt

967 988 990

Mais informações:

linktr.ee/veraluz_

Bem hajas e até já!
Vera Luz

Image by Muisje from Pixabay

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