Há pessoas que já não vivem no passado.
Mas falam dele todos os dias.
E esta diferença é mais importante do que parece.
Acontece alguma coisa hoje e imediatamente aparece uma associação:
“Tu estás a fazer exatamente aquilo que o meu pai fazia.”
“Foi assim que começou o meu casamento.”
“Quando me estava a divorciar aconteceu exatamente a mesma coisa.”
“É sempre assim comigo.”
“Mais uma vez alguém me abandona.”
“Já a minha mãe fazia isto.”
“Esta pessoa é igual ao meu ex.”
“É um narcisista. Já sei onde isto vai dar.”
“Estou outra vez a repetir o mesmo padrão.”
O acontecimento pode ser novo.
A pessoa pode ser nova.
Podem ter passado vinte ou trinta anos.
Mas emocionalmente a conversa continua a ser a mesma.
E curiosamente, hoje temos ainda mais ferramentas para fazer estas associações.
Sabemos muito mais sobre trauma, criança interior, padrões familiares, relações tóxicas, narcisismo, distúrbios de personalidade, estilos de apego, sistema nervoso, feridas emocionais, mecanismos de defesa, padrões transgeracionais…
E todo este conhecimento é extraordinariamente importante.
Eu própria trabalho precisamente com muitas destas ferramentas.
O problema não é voltar ao passado.
Às vezes precisamos mesmo de voltar.
Precisamos compreender.
Chorar.
Revisitar.
Dar nome ao que aconteceu.
Perceber aquilo que uma criança não tinha capacidade para perceber.
Pacificar.
Processar a dor.
Fazer as pazes.
Retirar uma aprendizagem.
Mas isso é muito diferente de ruminar.
Na psicologia existe um nome bastante simples para uma parte deste fenómeno:
ruminação.
Ruminar é voltar repetidamente a acontecimentos, conversas, injustiças, perdas, erros e feridas, tentando encontrar através do pensamento uma solução emocional que o pensamento, sozinho, nunca consegue produzir.
E aqui está o problema:
ruminar parece reflexão, mas não é necessariamente reflexão.
A reflexão leva-nos a algum lado.
Ajuda-nos a compreender.
Permite retirar uma aprendizagem.
Muda uma escolha.
Produz uma decisão.
Pacifica.
E, a certa altura, termina.
A ruminação anda às voltas.
Conta outra vez.
Analisa outra vez.
Culpa outra vez.
Julga outra vez.
Procura outra explicação.
Faz mais uma associação.
Acrescenta mais uma prova ao processo.
E regressa exatamente ao mesmo lugar.
Ou pior.
Regressa ainda mais zangada.
É quase como tentar apagar um fogo deitando-lhe álcool.
A pessoa acredita que está a trabalhar a dor, mas pode estar constantemente a reacendê-la.
Em vez de a experiência perder carga emocional com o tempo, cada nova ruminação pode voltar a alimentá-la.
E eu acredito que existe aqui uma contradição muito humana.
Inconscientemente, talvez estejamos mesmo à procura de alívio.
De uma conclusão.
De libertação.
De uma resposta que finalmente nos permita dizer:
“Agora compreendi. Agora posso descansar.”
Mas o ego pode aproveitar essa procura para fazer outra coisa:
reforçar a narrativa da vítima.
“Vês como eu tinha razão?”
“Vês como aquilo foi injusto?”
“Vês como aquela pessoa é culpada?”
“Vês como isto me acontece sempre?”
“Vês como eu sou assim por causa daquilo que me fizeram?”
E, sem percebermos, instalamos dentro de nós uma espécie de tribunal que nunca encerra a sessão.
Apresentamos novamente as provas.
Chamamos outra vez as testemunhas.
Reconstruímos os acontecimentos.
Voltamos a acusar.
Voltamos a defender-nos.
E esperamos uma sentença que nunca chega.
Porque talvez aquilo que realmente falta já não seja outra explicação.
Talvez falte uma coisa muito mais difícil:
ACEITAÇÃO.
Aceitar.
Render-se.
Baixar as armas.
Deixar cair a toalha.
Encolher os ombros perante aquilo que já não podemos mudar e dizer:
“Foi assim.”
Tive os pais que tive.
Aquela pessoa deixou-me.
Fui traído.
Perdi dinheiro.
Fiz escolhas péssimas.
Alguém morreu.
O meu filho não correspondeu ao que imaginei.
Fui injustiçado.
Também fui injusto.
Aquela relação nunca será aquilo que desejei.
Algumas coisas não têm reparação.
Algumas pessoas nunca vão pedir desculpa.
Algumas perguntas nunca terão uma resposta que me satisfaça.
E aconteceu.
Aceitação não significa dizer que foi correto.
Não significa gostar.
Não significa desculpar tudo.
Não significa voltar para quem nos fez mal.
Não significa permitir novamente.
Aceitação não é aprovação.
Aceitar é deixar de exigir que o passado tivesse sido diferente para conseguirmos finalmente viver em paz no presente.
E talvez seja precisamente aqui que a ruminação encontra maior resistência.
Porque aceitar implica, a certa altura, desistir do julgamento permanente.
Desistir de continuar a procurar culpados.
Desistir de provar que tínhamos razão.
Desistir de usar a dor como identidade.
Desistir do lugar da vítima.
Sacudir as mãos.
E seguir.
Não porque aquilo não tenha sido importante.
Mas porque já foi importante durante tempo suficiente.
Há ainda outra coisa que precisamos de aceitar e que talvez seja das mais difíceis:
crescer dói.
Perder dói.
Separarmo-nos dói.
Desiludirmo-nos dói.
Reconhecer que estávamos errados dói.
Deixar uma identidade antiga dói.
Perceber que alguém não nos ama como desejávamos dói.
Aceitar que uma fase acabou dói.
A vida não nos prometeu ausência de dor.
E talvez uma parte do sofrimento venha precisamente da nossa revolta permanente contra esta realidade:
“Isto não devia ter-me acontecido.”
Mas aconteceu.
E depois de compreendermos, chorarmos, zangarmo-nos, procurarmos ajuda e retirarmos a aprendizagem possível, chega uma altura em que existe uma pergunta mais importante do que:
“Porque é que isto me aconteceu?”
A pergunta passa a ser:
“Agora que aconteceu, o que quero fazer com o resto da minha vida?”
É aqui que começamos realmente a sair do passado.
Não quando deixamos de nos lembrar.
Mas quando deixamos de utilizar constantemente o passado para interpretar o presente.
A pessoa que está à minha frente não é o meu pai.
Esta relação não é o meu casamento anterior.
Este desacordo não é aquela antiga rejeição.
Esta perda não é todas as perdas que já tive.
Este erro não significa que toda a minha vida corre mal.
E sentir novamente uma emoção antiga não significa necessariamente estar a viver novamente a mesma história.
Hoje não é ontem.
E eu também já não sou a pessoa que era ontem.
Talvez uma das formas mais profundas de cura seja permitir que o presente tenha finalmente a oportunidade de ser novo.
COMO DEIXAR DE RUMINAR?
Talvez o primeiro passo seja identificar a associação sem voltar a mergulhar nela.
“Já percebi. Esta situação desperta em mim uma experiência antiga.”
E chega.
Não precisamos de voltar a abrir todo o processo.
Se já conhecemos os nossos padrões, sabemos que é perfeitamente possível que a vida nos volte a apresentar experiências semelhantes.
Na minha forma de compreender a vida, acredito mesmo que existe uma inteligência por detrás destes encontros.
Vamos encontrar pessoas que parecem desdobramentos do nosso pai, da nossa mãe, de antigos companheiros, de relações difíceis, de velhas feridas.
Vamos voltar a encontrar abandono, controlo, rejeição, dependência, crítica, medo, necessidade de aprovação ou aquilo que fizer parte da nossa proposta evolutiva.
Isso já não é novidade.
E provavelmente voltará a acontecer.
Portanto, a pergunta do milhão de dólares já não é:
“Porque é que esta pessoa é igual ao meu pai?”
Nem:
“Porque é que estou outra vez a atrair isto?”
A pergunta passa a ser:
“Agora que reconheço o padrão, que resposta escolho dar-lhe?”
Porque é precisamente aqui que podemos confundir consciência com ruminação.
“Lá está, mais um homem igual ao meu ex.”
“Lá está, outra pessoa controladora.”
“Lá está, mais alguém que me rejeita.”
“Lá está, outra vez a minha mãe.”
Sim.
Já viste.
Agora falta saber o que vais fazer.
Porque enquanto fico ocupado a analisar o outro, posso ausentar-me completamente de mim.
Projeto.
Julgo.
Culpabilizo.
Reconto.
Procuro semelhanças.
Confirmo o diagnóstico.
E posso tornar-me estranhamente ingénuo perante aquilo que realmente interessa:
qual é o meu papel neste encontro e qual é a resposta que me liberta dele?
É aqui que a reflexão precisa de terminar e a escolha precisa de começar.
Talvez a resposta seja:
“Não.”
“Já não quero.”
“Já não gosto.”
“Não concordo.”
“Isto não me faz bem.”
“Não preciso de continuar aqui.”
“Não quero continuar esta conversa.”
“Percebi quem és e aceito que és assim.”
“Percebi o que esta situação me veio mostrar.”
“Não vou tentar mudar-te.”
“Também não vou continuar a fazer isto comigo.”
E acabou.
Às vezes imaginamos a cura como um processo extraordinariamente complexo quando uma enorme libertação pode estar escondida num simples:
“Já percebi. E agora escolho diferente.”
Talvez seja isto que a ruminação não consegue fazer:
fechar.
Não consegue aceitar.
Não consegue baixar as armas.
Não consegue deixar de discutir mentalmente com aquilo que já aconteceu.
Não consegue olhar para o outro como ele é, perceber o desafio que aquela relação representa e decidir qual é a sua resposta.
E por isso continua a pensar.
A explicar.
A procurar culpados.
A procurar novas provas.
A voltar ao passado.
Quando talvez a libertação já não esteja em compreender mais.
Esteja em responder diferente.
A vida pode voltar a trazer-me o mesmo padrão.
Pode trazer-me outra pessoa controladora.
Outro abandono.
Outra rejeição.
Outro desafio à minha autoestima.
Outra pessoa que desperta exatamente a ferida que eu julgava resolvida.
Mas existe uma diferença fundamental:
eu já não sou obrigado a dar-lhe a mesma resposta.
Antes calava-me. Hoje falo.
Antes ficava. Hoje saio.
Antes tentava convencer. Hoje aceito que o outro pense diferente.
Antes precisava de ser escolhido. Hoje também escolho.
Antes passava meses a perguntar “porquê?”. Hoje pergunto:
“O que faço com isto?”
É aí que começa a verdadeira libertação.
Não quando a vida deixa de repetir determinados temas.
Mas quando o mesmo tema já não encontra em nós a mesma resposta.
E talvez seja esta a grande diferença entre ruminar e curar:
ruminar é voltar infinitamente ao problema à procura de uma explicação que nos liberte.
Curar é compreender o suficiente, aceitar o que é e escolher uma resposta diferente.
O passado merece ser compreendido.
Merece ser chorado.
Merece ser integrado.
Mas não merece necessariamente uma cadeira permanente à mesa de todas as conversas do presente.
Há uma altura em que precisamos de dizer:
“Sim. Eu sei o que me aconteceu. Sei o que perdi. Sei quem me magoou. Sei também onde errei. Já reconheço os meus padrões. Aceito que foi assim. Mas hoje estou aqui.”
E talvez curar seja também isto:
parar de perguntar ao passado porque somos assim e começar a perguntar ao presente quem escolhemos ser desta vez.
✨ Se percebes racionalmente os teus padrões, mas continuas emocionalmente preso às mesmas histórias, relações ou acontecimentos, a Leitura do Mapa Astrológico e Numerológico Kármico, a Hipnoterapia, a Terapia da Criança Interior ou a Terapia de Vidas Passadas podem ajudar-te a perceber o que ainda permanece por integrar e, sobretudo, a construir uma resposta diferente.
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Vera Luz
Bem hajas e até já!
Vera Luz

