Há muitas razões visíveis pelas quais uma relação se pode tornar tóxica ou acabar.
Uma traição.
Falta de respeito.
Abandono emocional.
Crítica constante.
Controlo.
Problemas de dinheiro.
Interferência das famílias.
Falta de intimidade.
Mentiras.
Dependências.
Diferenças na educação dos filhos.
Ausência de diálogo.
Tudo isto é real. E há acontecimentos que pertencem exclusivamente ao livre-arbítrio do outro.
Se alguém me traiu, traiu. Foi uma escolha dessa pessoa. Eu não posso voltar atrás e mudar o que ela fez.
Mas, por baixo destas razões visíveis, existe muitas vezes uma dinâmica invisível sobre a qual temos muito mais poder:
a relação que cada pessoa tinha consigo própria antes mesmo de entrar naquela relação.
Porque uma relação não começa quando duas pessoas se conhecem.
Cada uma chega trazendo a sua história.
As suas feridas.
A relação com os pais.
Os medos.
Os abandonos.
A autoestima.
A capacidade de ganhar dinheiro e criar estrutura.
A relação com as próprias emoções.
A capacidade de dizer não.
A autonomia.
A necessidade de aprovação.
A forma como aprendeu a amar e a deixar-se amar.
E é aqui que começam muitos problemas que só vão tornar-se visíveis anos depois.
Se eu entro numa relação à espera que o outro me dê aquilo que ainda não consigo dar a mim própria, começo imediatamente a criar uma dependência.
Se não me sinto segura, procuro segurança no outro.
Se não reconheço o meu valor, preciso que o outro me valorize constantemente.
Se não consigo sustentar-me, posso entregar-lhe o poder material.
Se não sei lidar com as minhas emoções, posso exigir que seja o outro a acalmá-las.
Se abandono constantemente as minhas necessidades, posso acabar revoltada porque o outro também não as vê.
Se não respeito os meus próprios limites, posso tolerar durante anos que alguém os ultrapasse.
E aquilo que estava escondido dentro começa progressivamente a aparecer fora.
É por isso que gosto tanto de olhar para as relações através do princípio do Yin e Yang.
Quando estas forças não estão minimamente integradas dentro de cada indivíduo, o casal começa frequentemente a distribuí-las entre si.
Um hiperassume o Yang:
faz, decide, organiza, sustenta, resolve, controla, manda.
O outro hiperassume o Yin:
espera, cede, depende, recebe, permite, obedece, deixa fazer.
E começa o círculo:
quanto mais um faz, menos o outro faz.
Quanto mais um controla, menos o outro decide.
Quanto mais um cede, mais espaço deixa para o outro dominar.
Até ambos se tornarem caricaturas dos extremos que assumiram.
Um controlador, autoritário e exausto.
O outro passivo, dependente e sem voz.
E mais cedo ou mais tarde, a relação apresenta a fatura.
Por isso, muitas das razões visíveis pelas quais dizemos que uma relação acabou podem ser entendidas também como efeitos exteriores de desequilíbrios que já existiam no mundo interior dos indivíduos.
Isto não significa culpabilizar alguém pela traição, violência, abandono ou escolhas do parceiro.
O comportamento do outro pertence ao outro.
Significa perguntar algo muito mais útil:
“O que nesta história pertence a mim e eu posso transformar?”
E aqui temos poder.
Posso fazer terapia.
Posso conhecer a minha história.
Posso aprender a gerir as minhas emoções.
Posso trabalhar as feridas da infância.
Posso reconciliar-me com o passado.
Posso aprender a sustentar-me.
Posso recuperar a minha voz.
Posso colocar limites.
Posso desenvolver aquilo que passei anos a procurar no outro.
O Yang excessivo terá de aprender Yin: escutar, receber, esperar, confiar, sentir, flexibilizar e deixar de controlar.
O Yin excessivo terá de recuperar Yang: agir, decidir, responsabilizar-se, colocar limites, ganhar voz, autoridade e autonomia.
Porque talvez uma das maiores ilusões do amor seja acreditarmos que encontramos alguém para preencher aquilo que nos falta.
Não.
Aquilo que rejeitamos, abandonamos ou não desenvolvemos dentro de nós não desaparece.
Muito frequentemente reaparece na dinâmica da relação e obriga-nos a olhar para ele.
E talvez por isso algumas relações sejam verdadeiras bombas-relógio mesmo durante a fase maravilhosa do encantamento.
Podemos estar apaixonadíssimos e continuar profundamente desequilibrados.
A paixão não cura aquilo que não quisemos olhar. Apenas consegue escondê-lo durante algum tempo.
Talvez o verdadeiro trabalho comece antes de perguntarmos:
“Porque é que o outro me faz sofrer?”
Começa quando também conseguimos perguntar:
“Como é que eu me relaciono comigo própria?”
Porque quanto mais inteira entro numa relação, menos preciso que o outro carregue as partes de mim que abandonei.
E é aí que o amor deixa progressivamente de ser uma tentativa de duas pessoas se completarem…
e pode finalmente tornar-se o encontro entre duas pessoas inteiras. ☯️
✨ A terapia pode ajudar precisamente a descobrir que partes de ti entregaste às relações, onde perdeste voz, autonomia ou equilíbrio e o que podes recuperar independentemente daquilo que o outro escolha fazer.
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Mais informações:
Vera Luz
Bem hajas e até já!
Vera Luz

