Há uma coisa que fui percebendo ao longo de muitos anos.
Normalmente, as pessoas têm uma ou duas áreas da vida particularmente desafiantes, mas outras parecem compensar.
Como já sabemos, vivemos num Universo polarizado. Todos vamos sentir dor e prazer ao longo da vida, perdas e conquistas, encontros e despedidas, momentos difíceis e outros maravilhosos.
Mas, para a maioria das pessoas, parece existir algum equilíbrio.
Uma infância difícil, mas um casamento feliz.
Relações complicadas, mas uma carreira extraordinária.
Dificuldades financeiras, mas uma família que funciona como porto seguro.
Problemas profissionais, mas amigos de uma vida.
Há algures uma zona onde podemos descansar.
Mas depois aparecem outras pessoas.
E são muitas vezes aquelas que encontro nas consultas e em quem reconheço o arquétipo da Ovelha Negra.
Pessoas para quem tudo parece ser um bocadinho mais pesado, mais exigente, mais difícil. Para onde quer que olhem, vêem a vida, desconfortável e até injusta.
Não raras vezes esse desconforto começa logo dentro delas próprias.
Foram crianças solitárias, inseguras, com medos, resistências, uma enorme sensibilidade ou uma sensação precoce de não pertencerem a lado nenhum.
Ou seja, antes sequer de a vida começar a acontecer, já existe uma carga que a alma trouxe consigo.
Depois chegam à família.
E encontram um ou dois pais particularmente difíceis.
Pais que não sabem amar.
Pais ausentes, frios, imaturos, narcísicos, controladores, idealistas ou perfeccionistas.
Pais que carregam as suas próprias feridas e limitações e acabam por tocar precisamente nas delas.
Mas a família não termina nos pais.
Há a família da mãe e há a família do pai.
Dois ramos diferentes. Duas histórias. Dois sistemas familiares com os seus segredos, perdas, injustiças, abandonos, silêncios, exclusões e padrões repetidos durante gerações.
E é curioso como cada um deles pode despertar emoções completamente diferentes.
Podemos sentir pertença num lado e rejeição no outro. Ter uma ligação extraordinária com um avô e uma relação dificílima com uma avó. Sentir-nos inferiores perante uma tia, competir com um primo ou descobrir, muitos anos depois, que estamos a repetir uma história que já existia naquele ramo da família.
Cada lado vai tocar partes diferentes da nossa história.
Mais tarde chegam as relações.
E pensamos que finalmente encontrámos aquela pessoa especial com quem vamos ser felizes.
Só que essa pessoa não só vai mostrar que esá longe de ser perfeita como idealizámos, como também não vem sozinha.
Traz uma mãe, um pai, irmãos, por vezes filhos ou ex-parceiros. Traz uma educação, uma história, feridas, lealdades e uma determinada forma de lidar com amor, dinheiro, conflito, intimidade, autoridade e liberdade.
De repente, não estamos apenas a relacionar-nos com aquela pessoa.
Entrámos também em contacto com o sistema familiar que ela traz consigo.
E podem aparecer sogros difíceis, famílias invasivas, conflitos de lealdade, diferenças de valores ou simplesmente formas completamente diferentes de entender aquilo que é uma família.
Às vezes, curiosamente, até conseguimos lidar bem com o parceiro e é a família dele que vem acordar feridas antigas nossas.
Outras vezes acontece o contrário e encontramos ali experiências de amor, pertença e acolhimento que nunca tivemos na nossa própria família.
Porque uma relação não junta apenas duas pessoas.
Muitas vezes põe frente a frente duas histórias e dois sistemas familiares inteiros.
E começam também as desilusões, abandonos, traições, dependências, rejeições, solidão e todas aquelas emoções difíceis que fazem das relações outro enorme território de evolução.
E não raras vezes até os amigos entram nesta história.
Depois vem o mundo profissional.
Chefes.
Colegas.
Autoridade.
Reconhecimento.
Valor.
Dinheiro.
Há quem nasça numa família muito rica e descubra que o dinheiro não trouxe felicidade nenhuma.
E há quem nasça com pouco e tenha de aprender através da dificuldade o seu valor, a autonomia, a capacidade de criar estrutura e sustentar a própria vida.
E depois chegam os filhos.
Aqueles bebés maravilhosos que imaginámos como uma avalanche de amor puro.
Num instante crescem e tornam-se pessoas adultas.
Com personalidade, vontade, escolhas, feridas e, por vezes revelam 6ewsformas de estar completamente incompatíveis com as nossas.
Também eles podem tornar-se grandes agentes da nossa evolução.
Até que um dia esta pessoa olha para a própria vida e pergunta:
“Mas porque é que tudo tem de ser tão difícil?”
“Porque é que todas as áreas da minha vida são desafiantes?”
“Onde é que está o sítio onde eu posso simplesmente relaxar?”
Eu própria fiz estas perguntas muitas vezes.
E foi precisamente através da astrologia, do estudo das filosofias e leis espirituais orientais, do meu próprio mapa e, mais tarde, dos mapas que fui estudando nas consultas, que comecei a perceber uma coisa:
há realmente mapas mais desafiantes e histórias com uma concentração evolutiva muito maior.
Não estamos aqui a falar de sorte ou azar.
Muito menos de justiça ou injustiça.
Dentro da minha visão kármica, cada alma chega no seu tempo e com a sua história, mais ou menos pesada conforme as suas escolhas passadas.
Se traz de vidas passadas relações não resolvidas, desequilíbrios, escolhas, dependências, apegos, ilusões ou padrões que nunca foram verdadeiramente curados e libertados, naturalmente que esse peso chega à nova encarnação.
Não como castigo.
Chega para ser visto, curado, equilibrado e finalmente libertado.
E há almas que parecem ter escolhido condições particularmente intensas para o fazer.
Como se tivessem decidido:
“Desta vez vamos tratar de muita coisa.”
Karmas antigos que ficaram por resolver.
Relações que nunca foram saradas.
Dependências que nunca foram vistas.
Apegos que nunca foram libertados.
Ilusões que insistiram em manter-se.
Padrões familiares repetidos durante gerações.
Medos que nunca foram superados.
Prisões das quais fugimos sem verdadeiramente nos libertarmos.
E talvez a parte mais difícil:
as nossas próprias sombras que nunca conseguimos integrar.
Porque reconhecer a sombra dos outros é relativamente fácil.
Difícil é admitir que, algures na nossa longa história, também nós podemos ter feito más escolhas, magoado, abandonado, controlado, traído, roubado ou fugido.
E precisamente porque a nossa própria sombra é tão difícil de reconhecer, a vida encontra uma maneira extraordinária de no-la mostrar:
põe-na representada nas pessoas mais próximas.
O pai.
A mãe.
O irmão.
O parceiro.
A tia.
O filho.
O chefe.
O vizinho.
Pessoas das quais dificilmente conseguimos simplesmente fugir sem consequências e que nos obrigam a reviver o velho drama vezes sem fim até que a cura e libertação aconteçam.
É quase como se a cerca kármica começasse a apertar.
Um dia terminaste uma relação, mas não curaste a dor.
Fugiste dos pais, mas não integraste aquela história.
Deixaste de falar com alguém, mas não percebeste o que aquela relação estava a tentar mostrar-te.
Mudaste de cenário, mas levaste contigo exatamente o mesmo padrão.
E a vida volta a apresentá-lo.
Às vezes ainda mais perto.
Porque há encontros que parecem trazer histórias muito maiores do que aquilo que aparentemente está a acontecer.
E a astrologia mostra isto de uma forma extraordinária.
Quando comecei a suspeitar de que poderia existir uma razão maior para determinadas pessoas difíceis estarem presentes na nossa vida, foi também através da astrologia que confirmei a presença simbólica dessas pessoas e dessas histórias em aspetos específicos do mapa.
E comecei a ver a repetição.
Casas 4, 8 e 12 fortemente marcadas.
Nodo Sul dominante ou ligado a pontos importantes.
Saturno e Plutão com grande peso no mapa.
Vários planetas retrógrados.
Planetas ou pontos importantes no grau 29.
Quíron, Lilith e os Nodos repetidamente envolvidos nos grandes temas da vida.
Um ou dois destes indicadores podem mostrar fechos, revisões ou a necessidade de terminar determinados padrões.
Mas quando encontramos vários no mesmo mapa, repetindo e reforçando a mesma história, podemos estar perante alguém que teve a coragem, no plano espiritual, de escolher uma encarnação para resolver várias áreas ao mesmo tempo.
É aquilo a que comecei a chamar uma vida de reset.
Como se a alma estivesse cansada de repetir as mesmas velhas histórias e decidisse:
“Nesta vida posso não ter muito sossego. Posso não ter sempre paz. Posso não ter a tranquilidade que gostaria. Mas desta vez quero limpar tudo o que conseguir.”
Uma espécie de limpeza de primavera da alma.
Vamos aos armários.
Abrimos as gavetas.
Mexemos nos cantos onde ninguém mexia há séculos.
E durante algum tempo até parece que a casa ficou pior.
Mas uma coisa extraordinária pode estar a acontecer.
Porque uma enorme concentração de desafios pode trazer também uma enorme concentração de libertações.
Aquilo que parece uma sucessão interminável de problemas pode estar a permitir fechos extraordinários e saltos evolutivos tão grandes que talvez nem consigamos compreender completamente nesta vida.
E foi também ao encontrar pessoas assim nas minhas consultas que percebi uma coisa que me fez muito bem:
eu não era a única.
Porque é muito fácil alguém com uma história destas começar a acreditar que tem azar.
Que não merece.
Que não é capaz.
Que os outros conseguem tudo com mais facilidade.
Que existe quase um castigo cósmico dirigido especificamente a si.
Mas talvez seja precisamente ao contrário.
Talvez uma vida destas revele uma alma que, no plano espiritual, teve uma enorme coragem para abraçar a própria cura.
Não veio apenas continuar e repetir padrões tóxicos como muitos ainda estão sem saber.
Veio rever.
Compreender.
Integrar.
Libertar.
Fechar.
E, sempre que possível, não deixar nada para depois.
Foi assim que fiz nascer o clube das Ovelhas Negras.
Pessoas diferentes.
Mapas diferentes.
Histórias diferentes.
Mas aquela sensação estranhamente familiar:
“Eu não vim apenas continuar uma história. Vim terminar algumas que já vinham de trás e abrir caminhos que ainda não existiam.”
Por isso, se às vezes também perguntas:
“Mas era mesmo preciso vir tudo no mesmo pacote?”
talvez um dia consigas olhar para a tua história de outra maneira.
Não como uma vida onde tudo correu mal.
Mas como uma vida onde limpaste muita coisa e onde muitos padrões, relações e circunstâncias tiveram finalmente oportunidade de fechar em amor.
E talvez alguns dos maiores saltos evolutivos de uma alma sejam precisamente aqueles cuja dimensão a personalidade ainda nem consegue compreender enquanto os está a viver. ✨
Se reconheces esta sensação na tua própria história e queres compreender os padrões, karmas, relações e aprendizagens que aparecem repetidamente na tua vida, marca a tua Leitura do Mapa Astrológico e Numerológico Kármico ou consulta terapêutica.
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Bem hajas e até já!
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