Dia da Mãe

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À beira de mais um dia da Mãe, acordei hoje a pensar como era vivido este papel há 100 anos atrás, tanto na forma de filhos como de mães. 

100 anos parece muito tempo, mas a verdade é que para alguns ainda vivos, estamos a falar dos pais, para outros dos avós e dos mais novos, os bisavós. Ou seja, cronologicamente, 100 anos parece muito tempo, mas a herança invisível a nível de tradições, comportamentos, hábitos, emoções, crenças, valores, dores, traumas e tendências está mais viva do que pensamos. 

Em todas as linhagens, irá então sempre haver o conhecido choque de gerações que resulta entre o peso e a herança dessas memórias do passado com que nascemos, quase sempre representadas nos pais e as novas oportunidades de liberdade, crescimento e evolução que a sociedade mais moderna em que nascemos nos oferece. 

Aliás, nós somos memória ambulante, somos o produto final de todas as experiências que já vivemos em vidas passadas, e iremos manter-nos presos às dinâmicas e prisões do passado até que a vida, na sua inteligência cósmica evolutiva, nos empurre para as circunstâncias certas que nos convidam a libertar e transformar esse passado em novas e mais actualizadas versões de nós próprios. 

Mas se hoje, esta visão espiritual, Karmica e evolutiva já começa a ser normal e estes conceitos orientais compreendidos pela maioria e aceites como saudáveis e válidos, há 100 anos atrás, principalmente aqui no Ocidente, o conceito do Eu, do indivíduo, das suas dores, da busca da felicidade e do seu papel no Universo estavam condicionados pela religião e seus dogmas de perfeição, culpa, julgamento e medo.

As bases da espiritualidade e do desenvolvimento pessoal que conhecemos hoje tais como consciência pessoal, responsabilidade Karmica, amor próprio, respeito pessoal, livre arbítrio, Hermetismo, equilíbrio emocional, liberdade criativa, evolução espiritual não tinham lugar numa sociedade onde o indivíduo estava ainda muito preso aos papéis que representava no mundo exterior. 

O mundo interior e suas normais flutuações psicológicas, espirituais e emocionais era tema tabu, ignorado, abafado e até ridicularizado, levando a maioria a identificar-se com o exterior, com os papéis familiares, com os bens materiais, com máscaras e comportamentos sociais, criando por compensação mecanismos de defesa, negação e proteção a qualquer sinal de desconforto interno. 

O Eu só existia em referência com o exterior, em relação com algo ou alguém. Ou seja, nos papéis familiares principalmente no papel de filhos, nos papéis relacionais de esposo ou esposa, no papel de mãe e pai, nos papéis profissionais e financeiros ou através de títulos e cargos, papéis religiosos, desportivos, artísticos, mas sempre papéis exteriores. Não é difícil então de perceber que essa exagerada identificação originava enormes ilusões quanto à nossa identidade e ao papel do outro na nossa vida, enormes dependências que nos levaram a dominar ou ser dominados nas relações e enormes apegos que nos condicionaram ou mesmo impediram o processo de amadurecimento e identidade. 

O EU, suas necessidades, resistências e vontades pessoais, seus gostos e aversões, suas emoções e estados de espírito, suas dúvidas e questões intelectuais, sua vontade de ser livre e viver à sua maneira simplesmente não estavam presentes, não tinham espaço para existir.

Penso que hoje em dia seja muito difícil para nós, principalmente os mais jovens, imaginar esta forma de viver e estar na vida. Mas muitos ainda vivem fiéis a esse passado, leais às dores dos seus antepassados, repetindo inconscientemente esses padrões.

Seguindo o tema de hoje do dia da Mãe, tenho observado que os papéis que representamos como filhos e como pais, carregam até hoje muitas memórias de tempos onde eram vividos de forma intensa demais, com ilusões, apegos e dependências em exagero que impediram o EU de se formar.

Vemos este fenômeno nos mapas astrológicos onde as Casas 4, 5 e 10, aspectos Karmicos à Lua e ao Sol e os arquétipos de Leão e Caranguejo estejam exacerbados. 

Em todos, mas principalmente nestes mapas, o papel de mãe dominou a encarnação. Era através desse papel que se desenvolvia a identidade pessoal, familiar e social, era neste papel que a mulher ia buscar a razão de viver, o amor que precisava, o objeto da sua autoridade ou manipulação, o espelho das suas frustrações e idealizações. 

As relações eram vistas como uma espécie de uma empresa onde o Pai providenciava o dinheiro e a segurança e a Mãe era a responsável pela gestão da casa, pela educação dos filhos que ia até ao casamento dos mesmos, e mais tarde, pelo papel de avó. A lealdade ao passado era total através do orgulho em manter tradições vivas e repetir padrões herdados. 

A liberdade de ser, pensar ou fazer diferente não existia para a maioria e quem se atrevia a ser diferente era excluído, excomungado, rejeitado, posto de parte e dado como louco sem dó nem piedade.

Isto tudo para dizer que, todas nós mulheres / mães, filhas e netas de mães e avós, carregamos dentro de nós este passado que, como vimos, está cheio de prisões, condicionantes, traumas e dores que nunca foram olhadas, honradas ou transformadas. Quem sabe, daqui a 7 anos com a entrada de Urano em Caranguejo, todos tenhamos a oportunidade de limpar essa área de vida. 

Não é raro ser testemunha em consulta, das dores da mãe que não deu amor, da mãe ausente, da mãe que abandonou, da mãe fria, da mãe violenta, da mãe ocupada com os outros, da mãe que morre no parto, da mãe imatura e submissa, da mãe que viveu exclusivamente para o marido. 

Precisamos sair da cadeira da criança cobradora e cheia de direitos para a cadeira do adulto que compreende que ninguém dá o que não tem para dar. Que as nossas mães foram também elas vítimas de um tempo onde não se falava em emoções, onde ninguém queria saber da felicidade e bem estar delas, onde eram obrigadas a parecer bem mesmo que não estivessem.

Convido-te por isso neste dia especial da Mãe, a agradecer a vida que ela te deu e a reconhecer que nunca deveu mais do que isso.
Convido-te a desenvolver compaixão pelas dores dela que não duvides, são muito maiores do que a tua.
Convido-te a fazeres as pazes com a pessoa que ela é ou foi e lembrar que a escolheste por te servir no teu propósito evolutivo. Se ainda não percebeste qual é, incentivo-te a fazer essa pesquisa pois é libertadora!
Convido-te a aceitar todos os erros e falhas que ela cometeu e a aceitar a simples humanidade e estado real evolutivo dela que apenas foi e deu o que conseguiu.
Convido-te a rejeitar a ideia de que o teu sofrimento se deve a ela, o que não é verdade pois cada um carrega as suas próprias dores do seu próprio Karma. Tu escolheste-a por ela representar as dores inconscientes do teu passado como um espelho conveniente e necessário.
Convido-te a fechar os olhos e imaginar-te a dares-lhe um abraço agradecendo a vida que ela te deu, aceitando que as dores que as duas sentiram ao longo da vida como pertencendo ao Karma de cada uma.
Convido-te a aceitar e a respeitar os limites dela, a incapacidade de te dar o amor, a liberdade e o respeito que achas que mereces pois já percebeste que ela também não os teve.
Convido-te a fazer as pazes com a ideia de que não és responsável pela felicidade dela e se ela não está bem, ou nada faz para mudar, deve-se às suas escolhas e condicionantes da vida presente.
Convido-te a não teres pena dela ou das dores que viveu. Lembra que também ela tem o seu Karma que não raras vezes por não ser transmutado é repetido e vive as consequências das suas velhas escolhas e terá como tu, oportunidade de reencarnar, corrigir e atingir um novo patamar de evolução.
Convido-te a ires ao teu coração imaginar o laço de amor que te liga a ela e limpá-lo de qualquer ressentimento, rancor, raiva, tristeza, deixando-o leve, brilhante e cheio de amor a fluir em ambas as direções.
Convido-te a ires para além da mãe que ela é e veres todas as camadas que ela carrega dentro tal como tu; a sua criança interior, a filha que também foi, traumas e frustrações de infância, sonhos não realizados, rejeições e dores amorosas, desiluões sociais, inseguranças várias, prisões intelectuais, filosóficas, emocionais e espirituais que não teve oportunidade de curar.
Convido-te a não quereres salvá-la por mais que te doa o estado em que ela está, caso ela não queira mudar. Lembra que é resultado das suas escolhas e ela merece respeito pelos seus limites. O futuro lhe trará, tal como te trouxe a ti, oportunidades de crescimento e evolução.

Por isso, esteja a Mãe presente ou ausente, seja ela perfeita ou um desafio, desejo-te um dia da Mãe vivido em Amor e com a presença dela no teu Coração

Vera Luz

Dia da Mãe – uma visão terapêutica

 

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