Há uma observação humorística atribuída ao comediante George Carlin sobre a condução que diz, mais ou menos, isto: quando vamos na estrada, quem conduz mais devagar do que nós é um idiota e quem conduz mais depressa é um louco.
Ou seja, a nossa velocidade é sempre a certa.
E talvez façamos exatamente o mesmo na vida.
A nossa maneira de educar os filhos é a mais sensata. A nossa forma de amar é a mais correta. A nossa maneira de trabalhar, gastar dinheiro, organizar a casa, lidar com os pais, terminar uma relação, perdoar, acreditar, pensar ou viver parece-nos perfeitamente lógica.
O problema são os outros.
Os outros exageram.
Os outros não percebem.
Os outros complicam.
Os outros estão errados.
Mas esquecemo-nos de uma coisa fundamental: nós não vemos a realidade tal como ela é. Vemo-la também através daquilo que somos como nos inspirou a poetisa Anais Nin.
Da nossa educação.
Da família onde crescemos.
Das nossas feridas.
Dos nossos medos.
Das experiências que tivemos.
Das crenças que aprendemos.
Daquilo que tivemos de fazer para sobreviver emocionalmente.
E, claro, do nosso ego.
É por isso que gosto tanto daquela imagem de duas pessoas colocadas em lados opostos de um número desenhado no chão. Uma vê um 6. A outra vê um 9.
As duas podem estar absolutamente convencidas de que estão certas.
E, da posição onde se encontram, as duas estão.
O problema começa quando uma delas conclui:
“Se eu vejo um 6, tu só podes estar errado por veres um 9.”
Talvez uma enorme quantidade dos nossos conflitos nasça exatamente aqui: confundimos a nossa perspetiva com a verdade absoluta.
Na minha visão espiritual, o ego não é a nossa identidade mais profunda ou divina. É uma identidade necessária para vivermos neste plano: está ligada ao corpo, à personalidade, ao nome, à nossa história, aos papéis sociais, àquilo que possuímos e à imagem que construímos de nós próprios.
Não precisamos de destruir o ego. Precisamos de perceber quando é que ele tomou conta da nossa vida.
O ego tem uma função extraordinariamente importante: proteger-nos.
É ele que nos faz olhar antes de atravessar uma estrada, reconhecer um perigo, estabelecer limites, defender a nossa integridade e procurar segurança.
O problema não é o sistema de proteção.
O problema é quando o sistema de proteção começa a ver perigo em tudo, em todos e em todo o lado.
Porque o ego não protege apenas o corpo. Protege também a identidade que construiu.
E, por isso, uma ideia diferente pode parecer uma ameaça.
Uma crítica pode parecer um ataque.
Admitir um erro pode parecer uma derrota.
Mudar de opinião pode parecer fraqueza.
Sair da zona de conforto pode ser interpretado como perigo.
E alguém que vê o mundo de maneira diferente pode tornar-se, sem percebermos, alguém de quem precisamos de nos defender.
Há ainda outra questão importante: o ego não conhece o sistema de evolução da alma.
Para o ego não existe evolução. Existe segurança, proteção e controlo.
O ego não pensa:
“Talvez exista alguma coisa melhor para mim do outro lado desta mudança.”
Ele pensa:
“Eu conheço isto. Sobrevivi aqui. Portanto, fica aqui.”
Não procura necessariamente aquilo que nos fará crescer. Procura aquilo que conhece. Não quer sair da zona de conforto, experimentar uma possibilidade diferente, abandonar uma crença antiga ou arriscar uma nova forma de viver.
Quer conservar aquilo que tem porque, para o seu sistema de sobrevivência, conhecido significa seguro.
É então que o mecanismo que deveria proteger a nossa vida começa a aprisioná-la.
Passamos a defender crenças que já não nos servem, relações que já não fazem sentido, comportamentos que nos fazem sofrer e versões antigas de nós próprios apenas porque são conhecidas.
O ego prefere muitas vezes o sofrimento conhecido à liberdade desconhecida.
E pode acabar por nos proteger de tudo.
Do risco.
Da mudança.
Da vulnerabilidade.
Do amor.
Da intimidade.
Da experiência.
Da transformação.
E até daquilo que poderia tornar-nos mais felizes.
É aqui que, na minha visão, entra a alma, através do nosso livre-arbítrio, da consciência e dessa dimensão de nós que consegue observar o próprio ego sem ter necessariamente de lhe obedecer.
É essa consciência que pode dizer:
“Eu sei que queres proteger-me, mas eu quero ouvir o que o outro tem para dizer.”
“Eu quero considerar a possibilidade de o outro também ter razão.”
“Eu quero admitir que posso estar errado.”
“Eu quero sair da minha zona de conforto.”
“Eu quero experimentar algo novo.”
“Eu quero descobrir o que existe para além daquilo que já conheço.”
Talvez seja isto colocar a alma a conduzir a nossa vida, em vez de entregar o volante ao ego.
Porque, se deixarmos exclusivamente ao ego a condução, provavelmente passaremos a vida a andar às voltas pelos mesmos lugares: intelectualmente, emocionalmente, fisicamente e espiritualmente.
Não porque o ego seja mau.
Mas porque não foi feito para nos fazer evoluir. Foi feito para nos manter seguros.
E segurança e evolução nem sempre apontam na mesma direção.
Há uma frase extremamente difícil de dizer e extraordinariamente libertadora:
“Posso estar errado.”
Não significa que o outro esteja automaticamente certo.
Não significa desistir das nossas convicções.
Não significa permitir que alguém nos manipule, nos desrespeite ou imponha a sua realidade sobre a nossa.
Significa apenas introduzir uma pequena abertura na muralha:
“Esta é a realidade que eu consigo ver daqui. Mas talvez não seja a única.”
E essa pequena abertura muda tudo.
Porque, enquanto eu precisar de provar que tenho razão, estou ocupado a defender-me.
Quando consigo perguntar:
“O que é que esta pessoa está a ver que eu não consigo ver?”
começo a aprender.
Carl Jung mostrou-nos de muitas formas como aquilo que não reconhecemos em nós próprios pode ser projetado no outro. Por vezes, aquilo que combatemos ferozmente fora de nós toca precisamente numa parte de nós que ainda não conseguimos reconhecer.
Por isso, crescer em consciência não é trocar uma certeza por outra.
É conseguir viver com um pouco mais de espaço interior.
Talvez eu tenha razão.
Talvez tu tenhas razão.
Talvez ambos tenhamos uma parte da razão.
Talvez estejamos ambos errados.
Ou talvez estejamos simplesmente a olhar para o mesmo número de lados diferentes.
A maturidade começa quando já não precisamos que o outro esteja errado para podermos estar certos.
E a liberdade começa quando deixamos de proteger tanto aquilo que pensamos ser que finalmente conseguimos descobrir quem somos para além disso.
Porque há prisões feitas de paredes.
E há outras, muito mais difíceis de reconhecer, feitas de certezas.
E tu? Consegues considerar que aquilo que vês como verdade pode ser apenas a perspetiva do lugar onde estás?
Se queres perceber melhor a tua pessoa, os teus padrões e aquilo que a tua história te trouxe até aqui, a Leitura do Mapa Astrológico e Numerológico Kármico ou consulta terapêutica pode ajudar-te.
veraluz@veraluz.pt
967 988 990
veraluz.pt
https://linktr.ee/veraluz_
Bem hajas e até já!
Vera Luz

