Há um velho ditado que diz:
“Para baixo todos os santos ajudam.”
E basta observarmos a vida para percebermos como esta frase faz sentido.
Há coisas que são, ou pelo menos nos parecem, relativamente fáceis.
É fácil desistir.
É fácil adiar.
É fácil comer aquilo que nos apetece.
É fácil ficar no sofá.
É fácil gastar dinheiro em disparates.
É fácil culpar os outros.
É fácil achar que temos sempre razão.
É fácil mantermo-nos nas nossas zonas de conforto.
Agora olhemos para o outro lado.
É difícil cuidar verdadeiramente da saúde.
É difícil manter uma rotina de exercício.
É difícil poupar e pensar no futuro.
É difícil reconhecer que não temos razão.
É difícil mudar hábitos antigos.
É difícil sair da zona de conforto quando não sabemos o que vamos encontrar do outro lado.
E basta colocar estas duas pequenas listas lado a lado para perceber uma coisa:
tudo o que é saudável, tudo o que é desejável e positivo dá muito mais trabalho.
Exige esforço, coragem, foco, consciência, determinação e disciplina.
Uma boa relação dá trabalho.
A autoestima dá trabalho.
A liberdade dá trabalho.
A autonomia dá trabalho.
Mudar um padrão de uma vida inteira dá muito trabalho.
E até aquilo que já conquistámos precisa de continuar a ser cuidado, porque sem consciência e esforço temos uma enorme tendência para regressar ao conhecido.
E aqui voltamos a um tema que atravessa praticamente todo o meu trabalho:
a Luz e a Sombra.
Há quem pense que evoluir espiritualmente é chegar a um estado em que tudo flui, tudo é fácil e deixamos finalmente de ter desafios.
Seria bom, mas não é assim que o Universo está construído.
Para mim, transcender é identificar a Sombra e aprender a escolher pela Luz.
O Dharma é escolher pela Luz.
Evoluir é escolher pela Luz.
E talvez aquilo a que podemos chamar um grau de mestre seja conseguir escolher pela Luz precisamente quando essa é a escolha mais difícil.
Porque ser honesto quando não temos nada a perder é relativamente fácil.
Difícil é dizer a verdade quando sabemos que podemos perder alguma coisa.
É fácil colocar limites quando estamos em situação de autoridade. Difícil é colocá-los quando sabemos que alguém que amamos pode ir embora.
É fácil desejar liberdade. Difícil é pagar o preço que a verdadeira liberdade exige.
É fácil culpar. Difícil é olhar para a nossa própria sombra e reconhecer: “Aqui fui eu que errei.”
Por isso, se queremos a Luz, temos de fazer as pazes também com a sombra pois só na integração das duas forças se pode criar algo novo.
Na astrologia, há um planeta que representa extraordinariamente bem este princípio:
Saturno.
Saturno está associado ao Karma, ao tempo, à responsabilidade, aos limites, à disciplina, às escolhas e respectivas consequências.
Mostra aqueles lugares onde, noutras alturas da nossa história, tentámos fazer corta-mato.
Onde quisemos passar à frente.
Onde não respeitámos a ordem.
Onde quisemos o sucesso sem fazer o caminho.
A recompensa sem o esforço.
A liberdade sem assumir a responsabilidade.
Onde quisemos colher antes de plantar.
E Saturno acaba por nos ensinar que a vida não funciona assim.
Mais cedo ou mais tarde chega o retorno, a consequência e a proposta de refazer de novo agora da forma certa.
Mas há um outro lado de Saturno;
a recompensa.
Quando vê esforço.
Dedicação.
Disciplina.
Integridade.
Honestidade.
Humildade.
Quando plantámos uma boa semente e continuámos a cuidar dela, mesmo quando ainda não víamos resultados, também chega o momento de colher.
Talvez por não conhecermos suficientemente estes princípios, aquilo a que gosto de chamar o protocolo de iluminação ou da felicidade, acabemos depois por chamar a muitos desses retornos sorte ou azar.
Na minha visão, sorte ou azar são apenas a forma ingénua e ignorante que temos de falar sobre aquilo que na verdade são consequências.
São retornos.
São escolhas antigas que finalmente produziram resultados.
São efeitos de velhas causas que nós próprios criámos.
É a alma a aprender, às vezes da maneira mais difícil e outras da maneira mais bonita, o quanto as escolhas que fazemos constroem aquilo que encontramos mais à frente.
Por isso se atribui a este planeta a ideia de Justiça Divina pois Saturno nunca se engana na porta quando traz os retornos.
O grande ensinamento de Saturno gira então em torno do nosso Livre Arbítrio e todas as grandes e pequenas escolhas que vamos fazendo.
a escolha fácil pode aliviar o presente e complicar o futuro.
A escolha difícil pode complicar o presente mas melhorar incrivelmente o futuro.
Não significa que tudo o que é difícil seja bom.
Não significa procurar sofrimento.
Significa perceber que aquilo que verdadeiramente queremos construir exige muitas vezes precisamente aquilo de que tentamos fugir:
esforço, coragem, foco, consciência, determinação e disciplina.
Talvez evoluir seja isto.
Reconhecer quando a Sombra nos está a oferecer o caminho mais fácil e, ainda assim, ter coragem para escolher o que parece mais tortuoso mas que sem dúvida nos levará à Luz.
Porque, para baixo, todos os santos ajudam.
Para cima, temos de ajudar nós.
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Bem hajas e até já!
Vera Luz
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