Há pessoas que passam anos a tentar compreender o passado.
Porque é que os pais fizeram aquilo.
Porque é que o casamento acabou.
Porque é que foram rejeitadas.
Porque é que aquele irmão as magoou.
Porque é que nunca receberam o amor de que precisavam.
Porque é que determinadas situações continuam a repetir-se.
Pensam.
Analisam.
Recordam.
Conversam sobre o assunto.
Voltam à infância.
Voltam à relação.
Voltam à injustiça.
Voltam à conversa que aconteceu há dez anos e imaginam aquilo que deveriam ter respondido.
E depois voltam outra vez.
A psicologia tem um nome para uma parte deste processo:
Ruminação.
E a ruminação é particularmente traiçoeira porque se disfarça muito bem de reflexão.
Parece que estamos a tentar resolver um problema.
Mas não estamos.
Estamos apenas a pensar repetidamente sobre um problema sem produzir uma verdadeira saída.
É como andar quilómetros numa passadeira.
Há esforço.
Há cansaço.
Há movimento.
Mas quando paramos…
Continuamos exatamente no mesmo sítio.
E esta distinção é importantíssima, sobretudo para quem já fez muita terapia, estudou muito desenvolvimento pessoal, espiritualidade, astrologia e conhece perfeitamente a sua história.
Porque podemos saber tudo.
“Eu sei que isto vem da minha mãe.”
“Eu sei que tenho medo de abandono.”
“Eu sei que o meu pai nunca me valorizou.”
“Eu sei que repito este padrão nas relações.”
“Eu sei o meu mapa astrológico.”
“Eu sei quais são os meus aspetos planetários mais difíceis.”
“Eu sei onde está o meu Quíron, a minha Lilith e o meu Plutão.”
“Eu sei qual é o meu Caminho de Vida.”
“Eu sei qual é o meu Nodo Sul e aquilo que trago do passado.”
“Eu já fui procurar as minhas vidas passadas.”
“Eu sei porque escolhi esta família.”
Muito bem.
Mas continuo a sofrer.
E agora?
Esta talvez seja uma das perguntas mais importantes de todo o processo de autoconhecimento.
Porque conhecimento não é transformação.
Saber não é curar.
Podemos conhecer perfeitamente o mapa da prisão e continuar lá dentro.
Há uma altura em que compreender de onde vem a dor deixa de ser suficiente.
Eu própria tenho aprendido isto.
Passei muitos anos a tentar compreender a minha história, a minha família, as minhas relações, as minhas feridas, aquilo que perdi, aquilo que não recebi e os padrões que fui repetindo.
Procurei respostas na terapia, na astrologia, na numerologia, na espiritualidade e em muitas outras formas de conhecimento.
E esse trabalho foi necessário.
Trouxe consciência.
Trouxe respostas.
Trouxe compreensão.
Mas também fui percebendo que existe uma fronteira muito subtil entre compreender o passado e continuar emocionalmente agarrada a ele.
Podemos conhecer tão bem a nossa ferida que acabamos por construir uma casa dentro dela.
Decoramos.
Pomos cortinas.
Compramos um sofá.
E depois admiramo-nos porque continuamos a viver no mesmo lugar.
A terapia, a astrologia, a numerologia ou qualquer outro caminho de autoconhecimento não podem servir apenas para explicar cada vez melhor porque somos infelizes.
Têm de servir para nos ajudar a deixar de viver da mesma maneira.
E isto não significa negar o passado.
Muito menos aquela conversa irritante do:
“Esquece.”
“Perdoa.”
“Segue em frente.”
Não.
Há dores que precisam de ser olhadas.
Há traumas que precisam de ser tratados.
Há histórias que precisam de ser compreendidas.
Há emoções que precisam de ser sentidas.
Há padrões que precisam de ser reconhecidos.
Mas depois de compreendermos…
Precisamos de integrar.
E depois de integrar…
Precisamos de caminhar.
Porque existe uma pergunta que pode tornar-se uma prisão:
“Porque é que isto me aconteceu?”
E existe outra que começa a abrir a porta:
“Agora que isto me aconteceu, agora que já aceitei o que me aconteceu e até reconheci o quanto cresci com isso… o que escolho fazer com a minha vida?”
É aqui que tudo muda.
A primeira pergunta mantém-nos à procura de respostas no passado.
A segunda reconhece o passado, integra-o… e devolve-nos a responsabilidade pelo futuro.
Talvez possamos observar isto de uma maneira muito simples.
Sobre o que falamos todos os dias?
Sobre aquilo que nos fizeram?
Ou sobre aquilo que estamos a construir?
Sobre aquilo que perdemos?
Ou sobre aquilo que ainda queremos conquistar?
Sobre as pessoas que nos magoaram?
Ou sobre as pessoas que ainda podemos conhecer?
Sobre aquilo que não tivemos?
Ou sobre aquilo que ainda podemos criar?
Não se trata de viver numa fantasia positiva e fingir que está tudo maravilhoso.
Trata-se de perceber para onde está virada a nossa energia vital.
Porque podemos estar biologicamente vivos em 2026…
E emocionalmente continuar a viver em 1960.
Presos à infância que tivemos.
À humilhação de 1980 que nunca conseguimos ultrapassar.
Ao abandono de 1990 que ainda usamos para interpretar todas as relações.
À morte de alguém no ano 2000 que levou consigo uma parte da nossa vontade de viver.
O corpo continuou.
A vida continuou.
Vieram outras pessoas, outras casas, outros empregos, outras oportunidades, outros aniversários.
Mas uma parte de nós ficou lá.
E talvez uma das formas mais discretas de perder uma vida seja precisamente esta:
passar tanto tempo emocionalmente agarrados àquilo que já aconteceu que deixamos de participar naquilo que ainda pode acontecer.
O calendário muda todos os anos.
A nossa consciência só muda quando nós mudamos com ele.
O passado merece ser compreendido.
Mas não merece ficar com a nossa vida inteira.
Há um momento em que precisamos de lhe dizer:
“Já percebi. Já chorei. Já procurei respostas. Já sei o que me ensinaste. Agora preciso de viver.”
Porque curar não é esquecer.
Curar é conseguir recordar sem voltar para lá.
É olhar para trás sem sentir necessidade de regressar.
É compreender de onde viemos sem continuar a justificar através disso o lugar onde permanecemos.
E talvez o verdadeiro sinal de que uma ferida começou finalmente a cicatrizar seja muito simples:
começamos a falar menos sobre aquilo que terminou…
e começamos novamente a falar sobre aquilo que queremos viver.
Volta a esperança.
Volta a curiosidade.
Volta o entusiasmo.
Voltamos a fazer planos.
A sonhar.
A desejar.
A imaginar possibilidades.
A sentir aquele friozinho bom de pensar:
“E se eu fizer isto?”
Voltamos a querer conhecer pessoas.
Ir a lugares diferentes.
Aprender coisas novas.
Criar projetos.
Experimentar.
Arriscar.
Viajar.
Apaixonarmo-nos.
Mudar de ideias.
Abrir portas sem sabermos exatamente o que existe do outro lado.
Porque viver também é isto.
É voltar a ter apetite pela vida.
É deixar de acordar todos os dias emocionalmente virados para aquilo que aconteceu e começar a acordar curiosos com aquilo que ainda pode acontecer.
É recuperar o espírito de aventura.
A iniciativa.
A coragem.
O desejo.
A capacidade de acreditar que ainda existem pessoas que não conhecemos, lugares onde nunca estivemos, experiências que nunca vivemos, amores que ainda não chegaram, ideias que ainda não tivemos e versões de nós próprios que ainda nem sequer conhecemos.
O passado vai continuar a existir.
Mas deixa de ser o lugar para onde estamos constantemente virados.
Passa a ser o chão que já percorremos.
E finalmente voltamos os olhos para a frente.
Não porque saibamos exatamente o que aí vem.
Mas porque recuperámos uma coisa extraordinariamente importante:
a vontade de descobrir.
Talvez seja isto estar verdadeiramente vivo.
Não apenas ter sobrevivido ao que aconteceu.
Mas voltar a sentir entusiasmo pelo que ainda não aconteceu.
Porque saber onde está o Nodo Sul é importante.
Mas, a certa altura, temos de parar de montar acampamento lá e começar a caminhar para o Nodo Norte.
✨ Se sentes que já compreendes intelectualmente muitos dos teus padrões, mas continuas emocionalmente presa às mesmas histórias, a terapia pode ajudar precisamente a fazer essa passagem: da compreensão para a transformação.
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Bem hajas e até já!
Vera Luz
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