Imagina que te davam a escolher entre duas possibilidades.
Na primeira, poderias continuar a viver com a imagem que construíste de ti próprio.
És uma boa pessoa.
És uma pessoa justa.
Tens alguma consciência de ti mesmo.
Tentas fazer o melhor.
Quando as relações correm mal, normalmente foram os outros que falharam.
Foram os teus pais.
O ex-marido ou a ex-mulher.
O filho.
O chefe.
O amigo narcisista.
A família tóxica.
Foram os outros que não souberam amar, compreender, respeitar ou reconhecer aquilo que valias.
Sim porque afinal tu nunca fizeste mal a ninguém, antes pelo contrário, tentaste sempre ser perfeito.
Poderias continuar a viver assim até ao fim da vida, confortavelmente instalado na certeza de que o problema vem sempre de fora, é o mundo, são os outros, são as circunstâncias.
Ou poderias escolher outra coisa.
Imagina que tinhas a oportunidade única de te serem mostradas, com uma certeza impossível de ignorar, a verdade nua e crua que se esconde dentro de ti. Pela primeira vez na vida terias a oportunidade de veres validadas todas as tuas qualidades e talentos mas também os defeitos e sombras que até hoje viveste em negação ou sempre tentas justificar de mil maneiras.
A tua inveja.
A tua arrogância.
A tua necessidade de controlo.
O teu egoísmo.
Os teus jogos de manipulação.
A tua necessidade de aprovação.
A tua tendência para te vitimizares.
As vezes e formas em que magoaste pessoas.
As vezes em que te iludiste e recusaste a ver a realidade.
As formas como chamaste amor ao que era tóxico.
O medo que tens da solidão e como a evistas a todo o custo.
As vezes que deste e ajudaste interesseiramente.
E todas as vezes que julgaste nos outros o que afinal também és, também fazes e também vive dentro de ti.
Qual escolherias?
Se a primeira parece confortável mas assenta em mentira e por isso tem tempo de vida curto, a segunda possibilidade é seguramente mais dolorosa mas oferece dignidade, maturidade e permite evoluir.
Na primeira estamos condicionados por uma auto imagem favorável ao nosso ego e ao que ele nos permite aceitar ou não de nós próprios.
Na segunda, iremos aceder à nossa essência, à polaridade luz e sombra que nos habita e por isso algumas das ideias que construímos sobre quem nós teriam de cair.
É aqui que Jung e o conceito de Sombra se tornam tão interessantes.
A Sombra não é simplesmente “o mal que existe em nós”.
É aquilo que não conseguimos reconhecer como nosso e que, por isso, permanece fora da nossa consciência. E ao permanecer fora da nossa consciência, é-nos devolvido pelo exterior,
pois aquilo que negamos não desaparece só porque não queremos vê-lo.
Continua a agir.
Nas nossas escolhas.
Nas relações.
Nas reações desproporcionadas.
Naquilo que mais nos irrita nos outros.
Nas histórias que contamos sobre nós próprios.
Nas justificações que inventamos.
E nas projeções que fazemos.
Nos desafios que atraímos.
Na visão Karmica das vidas passadas, existe ainda uma camada muito mais profunda.
A nossa alma não começou esta viagem nesta vida.
E ao longo das muitas experiências que já viveu, não ocupámos sempre o lugar dos bons, dos justos ou das vítimas.
Já fizemos más escolhas.
Já magoámos.
Já traímos.
Já abandonámos.
Já roubámos.
Já ofendemos.
Já abusámos do poder.
Já provocámos sofrimento.
E seguramente também já estivemos do outro lado de muitas das experiências que hoje tanto nos custam aceitar.
Também conhecemos a Sombra por dentro.
E é aqui que a Lei do Karma e a Lei da Atração ganham, para mim, um significado particularmente interessante.
As pessoas que encontramos ao longo da vida podem trazer-nos determinadas sombras para que finalmente as consigamos reconhecer.
Por isso, talvez algumas das pessoas que mais nos irritam, revoltam ou magoam estejam a representar diante de nós velhas personalidades que um dia também encarnámos e que hoje temos uma enorme dificuldade em reconhecer como nossas.
Hoje somos traídos e pensamos:
“Eu nunca faria isto.”
Somos abandonados:
“Eu nunca abandonaria ninguém.”
Encontramos alguém manipulador:
“Como é que alguém consegue ser assim.”
Alguém profundamente egoísta:
“Eu não sou nada assim.”
E talvez seja precisamente aí que a Sombra esteja a bater à porta.
Não para nos dizer que somos hoje aquela pessoa, mas para nos lembrar que a nossa alma também conhece esse lugar.
E isto pode ser profundamente desconfortável.
Porque é muito mais fácil ficarmos instalados no papel da vítima projectando o problema no outro:
Eu sou a pessoa boa.
Eu sou a pessoa consciente.
Eu sou a pessoa justa.
O outro é que trai.
O outro é que abandona.
O outro é que manipula.
O outro é que mente.
O outro é que agride.
O outro é que destrói.
E atenção: podemos realmente ter estado no lugar de vítimas nesta vida.
Reconhecer uma dimensão kármica numa experiência não desculpa quem nos magoou, não transforma abuso em aprendizagem obrigatória, nem retira responsabilidade a quem praticou determinados atos.
Cada pessoa continua responsável pelas suas escolhas.
Mas existe uma ideia que, para mim, muda profundamente a forma como olhamos para estas experiências:
ser vítima nesta história não significa que tenhamos sido vítimas em todas as histórias.
A Lei do Karma nãos e engana na porta.
A Lei da Atração não falha.
A Lei do Equilíbrio, do Género, do Ritmo todas elas garantem que nada acontece por acaso, que tudo tem uma razão maior de ser, que a sorte, azar e injustiça não existem pela lente da ordem maior e que tudo está como tem que estar.
Precisamos então aprender a ler a realidade e parar de julgá-la.
Desse ponto de vista talvez já tenhamos sido exatamente aquilo que hoje não suportamos.
E talvez algumas dessas pessoas funcionem como espelhos de velhas sombras que a nossa consciência atual rejeita porque já não se identifica com elas.
Não precisamos de voltar a vivê-las.
Precisamos de conseguir reconhecê-las.
Nos pais que escolhemos.
Nas pessoas que atraímos pela vida fora.
Na mensagem Karmica do nosso mapa astrológico.
A proposta é aceitar que o outro nos leva a ver partes de nós que ainda não foram aceites, abraçadas, iluminadas, curadas. E enquanto não houver este trabalho de humildade, de cura de integração, essas sombras irão repetir-se em novas pessoas ao longo do tempo.
Desta perspectiva devemos gratidão ao outro por nos proporcionar a oportunidade de trazer à luz algo que não desejamos que viva em nós e que tem o poder de condicionar a nossa vida.É aqui que a consciência começa a substituir o julgamento.
E é também aqui que podemos começar a sair daquela divisão infantil do mundo entre bons e maus, vítimas e carrascos, Luz e Sombra.
Porque todos carregamos potencialmente ambas.
Por isso existe uma enorme diferença entre sermos confrontados com a nossa Sombra e sermos condenados por ela.
Conhecer a Sombra não significa dizer:
“Sou uma pessoa horrível.”
Significa conseguir dizer:
“Então isto também existe em mim.”
E, a partir desse momento, acontece qualquer coisa extraordinária:
passamos a poder escolher o que fazer com aquilo que vimos.
Enquanto nego a minha necessidade de controlo, ela controla-me.
Enquanto nego a minha inveja, projeto-a.
Enquanto nego a minha agressividade, justifico-a.
Enquanto nego a minha dependência, continuo a organizar escolhas à volta dela.
Enquanto nego a minha necessidade de aprovação, continuo secretamente dependente da opinião dos outros.
Mas quando consigo olhar e dizer:
“Sim. Isto também sou eu.”
começa a existir espaço para compreender, trabalhar, curar, integrar e, finalmente, libertar.
Talvez seja por isso que o verdadeiro trabalho de consciência seja tão pouco confortável.
É muito mais agradável descobrir coisas maravilhosas sobre nós.
Que somos especiais.
Empáticos.
Espirituais.
Sensíveis.
Generosos.
Evoluídos.
Mas consciência não é escolher apenas as partes da verdade que nos fazem sentir bem.
Isso também pode ser ego disfarçado de evolução.
A verdadeira consciência exige coragem para perder algumas ilusões sobre nós próprios.
E curiosamente é aí que pode nascer uma autoestima muito mais sólida.
Porque já não preciso de acreditar que sou perfeito para gostar de mim.
Posso reconhecer a minha Luz sem negar a minha Sombra.
Posso reconhecer aquilo que fizeram comigo sem negar aquilo que eu também fiz.
Posso responsabilizar os outros pelo que lhes pertence sem lhes entregar a responsabilidade por tudo aquilo que existe na minha vida.
E posso olhar para os meus erros sem transformar responsabilidade em culpa.
Talvez amadurecer seja precisamente isto:
deixar a imagem de pessoa pura, perfeita e inocente da nossa própria história e aceitar que somos humanamente imperfeitos e que é no aperfeiçoamento permanente e não na ilusão da perfeição que damos sentido à vida..
Por isso volto à pergunta inicial.
Se te dessem mesmo a escolher…
Preferias passar o resto da vida protegido por uma mentira confortável sobre quem és?
Ou preferias que a vida te mostrasse, com toda a verdade, as qualidades e sombras que ainda não consegues reconhecer em ti, mesmo sabendo que algumas dessas verdades te poderiam doer profundamente?
Eu preferia saber.
Mesmo que doesse.
Mesmo que me obrigasse a reconhecer coisas de que não me orgulho.
Mesmo que tivesse de pedir desculpa.
Mesmo que destruísse algumas das ideias bonitas que construí sobre mim.
Mesmo que me obrigasse a mudar.
Porque uma verdade desconfortável pode libertar-nos.
Uma mentira confortável pode manter-nos exatamente no mesmo lugar durante uma vida inteira.
E talvez durante muitas mais.
A Luz não está em nunca termos conhecido a Sombra.
Está em reconhecê-la e, tendo finalmente consciência dela, escolher diferente.
Bem hajas e até já!
Vera Luz
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