A obsessão de estar ocupado: porque temos tanto medo de parar?

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Vivemos cansados.

A correr.

Com pressa.

Com horários.

Com filhos.

Com trabalho.

Com mensagens para responder.

Com contas para pagar.

Com problemas para resolver.

E, quando finalmente aparece um bocadinho de silêncio…

Pegamos no telemóvel.

Ligamos a televisão.

Vamos comer qualquer coisa.

Arranjamos uma tarefa.

Telefonamos a alguém.

Marcamos qualquer coisa para fazer.

Qualquer coisa serve.

Desde que não tenhamos de ficar demasiado tempo sozinhos connosco.

E talvez uma das razões pelas quais tanta gente vive permanentemente ocupada seja precisamente esta:

Parar é perigoso.

Porque quando paramos…

Sentimos.

E quando sentimos…

Começamos a perceber coisas.

Percebemos que aquela relação já morreu há muito tempo.

Que detestamos o emprego onde passamos oito horas por dia.

Que estamos zangados com alguém.

Que continuamos magoados com os nossos pais.

Que estamos profundamente sozinhos.

Que estamos exaustos.

Que há anos dizemos “sim” quando queremos dizer “não”.

Que construímos uma vida aparentemente perfeita que, afinal, não tem absolutamente nada a ver connosco.

Mas talvez aquilo que mais tenhamos medo de perceber, de trazer verdadeiramente à consciência, seja uma coisa muito mais simples e assustadora:

Estamos infelizes.

Reconhecer que a vida que estamos a viver não é aquela que desejávamos.

Que permanecemos numa realidade tóxica, desconfortável ou desarmoniosa.

E que, depois de vermos essa verdade, já não podemos fingir que não sabemos.

Porque ela vai obrigar-nos a fazer mudanças.

E algumas destas conclusões são assustadoras.

Porque consciência tem consequências.

Depois de veres, já não consegues “desver”.

Depois de perceberes que estás infeliz no casamento, tens de fazer alguma coisa com essa informação.

Depois de perceberes que a tua profissão te está a destruir, continuar lá deixa de ser apenas azar.

Depois de perceberes que passaste quarenta anos a tentar conquistar a aprovação da tua mãe, talvez tenhas de aprender a viver sem ela.

Depois de perceberes que estás permanentemente disponível para toda a gente menos para ti…

Alguma coisa terá de mudar.

Talvez seja por isso que tantas pessoas dizem não ter tempo para terapia.

Não têm tempo para meditar.

Não têm tempo para escrever.

Não têm tempo para estar sozinhas.

Não têm tempo para se observar.

Curiosamente, têm tempo para passar horas no telemóvel.

Para séries.

Para redes sociais.

Para problemas dos outros.

Para discussões inúteis.

Para manter uma vida inteira que já não querem.

Talvez, muitas vezes, não seja falta de tempo.

Seja fuga.

E conheço muito bem este mecanismo.

Durante muitos anos também vivi ocupadíssima a cuidar de toda a gente.

Fui mãe.

Mulher.

Cuidadora.

Fazia comida.

Organizava a casa.

Tratava dos filhos.

Cuidava do marido.

Resolvia problemas.

Tentava manter tudo de pé.

E enquanto estamos permanentemente ocupados a tomar conta da vida dos outros existe uma enorme vantagem:

não temos tempo para olhar para a nossa.

Quando finalmente parei…

Comecei a perceber o disparate de vida que estava a viver.

E isso não foi confortável.

Foi assustador.

Porque parar não me trouxe imediatamente paz.

Trouxe consciência.

E a consciência obrigou-me a fazer mudanças que, até então, me pareciam impossíveis.

Foi preciso questionar o casamento.

A família.

A minha identidade.

O meu trabalho.

As minhas dependências.

A forma como vivia.

Quem eu era.

E quem queria passar a ser.

Talvez seja por isso que hoje desconfio um bocadinho das pessoas que dizem:

“Eu não preciso de terapia. Está tudo bem.”

Às vezes está mesmo.

Outras vezes…

a pessoa simplesmente ainda não parou tempo suficiente para descobrir que não está.

A psicologia conhece bem esta tendência para evitarmos experiências internas desconfortáveis.

Podemos fugir através do trabalho.

Do álcool.

Da comida.

Das compras.

Do sexo.

Do exercício.

Das redes sociais.

Das relações.

Da hiperatividade.

Até podemos fugir através de uma agenda cheia de coisas aparentemente maravilhosas.

Porque uma fuga não deixa de ser fuga só porque fica bonita no Instagram.

E o corpo também participa.

Quando vivemos durante demasiado tempo em alerta, habituamo-nos à ativação.

À pressa.

Ao estímulo.

À antecipação.

Ao próximo problema.

Ao próximo objetivo.

Ao próximo acontecimento.

O silêncio começa quase a parecer estranho.

A tranquilidade incomoda.

Estar quieto incomoda.

Sentir incomoda.

E é precisamente aí que a terapia pode começar.

Não apenas quando contamos aquilo que nos aconteceu.

Mas quando finalmente criamos espaço suficiente para perceber o que aquilo que nos aconteceu ainda está a fazer dentro de nós.

A astrologia pode ajudar exatamente da mesma maneira.

Podemos descobrir um Saturno que construiu uma vida inteira baseada no dever.

Um Plutão agarrado ao controlo.

Um Urano desesperado por liberdade.

Uma Lua que nunca se sentiu emocionalmente segura.

Um Nodo Sul onde continuamos instalados porque é conhecido, mesmo quando já nos sufoca.

Mas conhecer o mapa não chega.

Temos de parar para sentir aquilo que o mapa está a contar.

Porque podemos saber perfeitamente onde está Saturno…

E continuar escravos do dever.

Podemos conhecer Urano…

E continuar aterrorizados com a liberdade.

Podemos estudar o Nodo Norte durante vinte anos…

E continuar confortavelmente acampados no Nodo Sul.

A consciência não acontece apenas quando aprendemos mais.

Muitas vezes acontece quando finalmente fazemos silêncio suficiente para ouvir aquilo que já sabíamos.

E talvez seja precisamente isso que tanta gente evita.

Porque parar pode obrigar-nos a reconhecer que precisamos de mudar.

De profissão.

De relação.

De hábitos.

De prioridades.

De crenças.

De amigos.

De forma de viver.

Às vezes até da identidade inteira que construímos.

E mudar assusta.

Por isso continuamos ocupados.

Continuamos cansados.

Continuamos distraídos.

Continuamos a correr.

Só que existe um pequeno problema.

Podemos fugir de nós durante muitos anos. Mas vamos sempre connosco.

Talvez por isso parar seja um ato tão poderoso.

Sentar.

Respirar.

Meditar.

Fazer terapia.

Escrever.

Passear sozinho.

Desligar o telefone.

Sentir o corpo.

Perguntar:

“Como é que eu estou realmente?”

E depois ter coragem para escutar a resposta.

Porque talvez a paz não comece quando finalmente resolvemos tudo.

Talvez comece no dia em que deixamos de precisar de fazer barulho suficiente para não nos ouvirmos.

E é aí que começa uma das viagens mais assustadoras e extraordinárias da vida:

parar de fugir de nós próprios e descobrir quem está, afinal, lá dentro.

✨ Se sentes que passaste anos a funcionar, cuidar, resolver, produzir e sobreviver, mas raramente tiveste espaço para perceber o que realmente sentes e queres, a terapia pode ser precisamente esse lugar de paragem, consciência e transformação.

veraluz@veraluz.pt
967 988 990

Mais informações:
https://linktr.ee/veraluz_

Bem hajas e até já!

Vera Luz

 

Image by Tung Lam from Pixabay

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