Apego e o processo de emancipação

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O apego é um dos venenos do mundo, dizem os budistas.
O apego acontece como uma resistência à vida, ao próprio processo de encarnação ou nascimento, à tentativa de ficar preso a algo que nos adia o amadurecimento, a capacidade de amadurecermos e nos empoderarmos da nossa história de maneira a assumir a responsabilidade pelas escolhas que fomos e vamos fazendo ao longo da nossa viagem.

O apego é a prisão a algo ou alguém que nos transmite segurança, amor e proteção na ilusão de que vai haver sempre alguém responsável que irá tomar conta de nós. É um estado semelhante ao que o feto sente dentro do útero; alguém está a tomar conta e a proporcionar o necessário para a sobrevivência do bebé. Do ponto de vista do bebé, a postura é de passividade, espera, irresponsabilidade, imaturidade, incapacidade de autonomia total.

Em vez de acompanhar os movimentos de evolução, de responsabilidade e de autonomia, a energia do apego tem o movimento oposto tentando recriar a dependência e a permanente busca de algo ou alguém que seja o provedor de amor, alimento, segurança e proteção.
Porque idade não é sinal de maturidade, não é raro encontrarmos adultos que inconscientemente resistiram toda a vida ao processo de emancipação e maturidade emocional e vivem “apegados” a algo ou alguém a quem disfarçadamente vão buscar o que precisam. Amor, segurança, alimento, proteção.

O marido que casa em busca da “mãe”. A mulher que casa em busca do “pai” ou que acha graça o marido ser mais um “filho”. A mulher que se anula a favor do papel de mãe e que se apega exageradamente aos filhos. A pessoa que nutre todos à sua volta em busca de recriar a dependência/apego ou o adulto que não amadurece e que se comporta como a eterna criança achando sempre que todos à sua lhe devem algo a que tem direito.
E quando não são pessoas, será o dinheiro a fazer o papel da segurança, a comida a fazer o papel do alimento e conforto, o sexo a substituir o amor.

O processo de maturidade obedece a uma sequência. Primeiro como crianças aprendemos a pedir e a receber para mais tarde sermos capazes de dar e proporcionar. Se resistimos à sequência saudável, ficamos presos à necessidade de receber, por vezes a vida toda e tornamo-nos incapazes de dar. Mais cedo ou mais tarde, a vida virá propor o equilíbrio proporcionando maneiras de curar estas resistências e desequilíbrios.
Ficam algumas pistas de como a vida nos vem convidar a sarar estas histórias;

– Ausência de amor na infância
– Mãe emocionalmente indisponível
– Abandono, rejeição, solidão
– Falta de “colo”
– Frieza emocional de quem a rodeia
– Assumir responsabilidades muito cedo
– Sentimento de ser empurrad@ para o mundo
– Medo de não ser capaz

Estas infâncias difíceis escondem a intenção de cura, consciência e equilíbrio destes apegos que podem não só durar uma vida inteira como vazar para vidas futuras. Ou seja, se a “doença” nos leva a agarrarmo-nos a alguém e a recriar a dependência e apegos, então iremos escolher uma vida onde os mesmos sejam difíceis para não dizer impossíveis de serem recriados, tal como vimos na lista acima. Do ponto de vista do espírito, esses acordos de desapego são então actos de amor combinados que irão permitir que o processo de emancipação aconteça. Do ponto de vista do ego, iremos sofrer e projectar a nossa dor nos “maus” que não nos deram amor”.

O apego acontece quando o processo de maturidade emocional não se faz, seja por resistência da criança pelo seu apego à mãe, seja pelo apego da própria mãe que boicota a autonomia da criança, mantendo-a na situação de dependência e promovendo o apego.

Idealmente o processo de maturidade emocional começa aquando do nascimento onde o cordão umbilical é cortado, assinalando nesse pequeno ritual, o começo da viagem de emancipação desse novo ser.
Num mundo perfeito, o papel da mãe ou de quem esteja a substituir/ajudar, é então o de acolher o novo ser e aos poucos ir promovendo a sua autonomia, a sua independência e a capacidade do novo ser funcionar sozinho.

Mas este não é um mundo perfeito. Caso fosse teríamos mães e pais e filhos perfeitos e não haveria sofrimento no mundo. O convite da viagem na Terra é a vivência da dualidade onde cada um de nós possui o livre arbítrio para a experienciar à sua maneira.

Logo, embora o processo de maturidade seja a proposta ideal, cada um de nós irá experienciá-lo de várias maneiras, seja a resistência ao mesmo seja pelo contrário, feito cedo demais, fenómeno que podemos observar em certas crianças que se revelam muito maduras desde cedo. E embora lhes achemos muita graça e sejam de facto mais fáceis de lidar, não quer isso dizer que sejam emocionalmente mais saudáveis. Ou seja, podem estar a fazer uma compensação de várias vidas de apegos.

Embora seja um tema e um processo comum a todos nós, pois todos temos como proposta a viagem de maturidade emocional, tenho observado que está inconsciente em muitas pessoas. Não são difíceis de encontrar os que vivem pela vida fora como se tivessem 4 anos, cobrando, pedindo, fazendo birras, esperando e exigindo de quem os rodeia a mesma atenção e disponibilidade que tem a mãe para com o recém nascido. E porque são movimentos inconscientes, facilmente resvalamos nos seus desequilíbrios, e nos perdemos numa qualquer fonte de apego, colocando em causa o nosso processo de maturidade e evolução pessoal e espiritual.

O processo de emancipação convida a todos nós à libertação gradual de qualquer tipo de apego ou dependência. Pede-nos autonomia, maturidade, capacidade de assumirmos o nosso caminho pessoal confiando que temos em nós os recursos suficientes para ir navegando pela vida. Pede que identifiquemos onde é que ainda vivemos infantilmente na forma de pedir, exigir e esperar e aprendamos a ser o adulto capaz de se auto-sustentar sozinho. Será desta autonomia que iremos então estar preparados para criar relacionamentos maduros e de qualidade. Relacionamentos onde o respeito pela individualidade e proposta pessoal de cada um é uma prioridade. Relacionamentos livres de exigências, cobranças e jogos psicológicos que mais não são do que repetições das birras infantis.

Sabendo isto procura então na tua vida onde possam haver relações que escondam apego. Serás tu que estás apegada a alguém que se esconde atrás de um qualquer papel na tua vida? Estarás tua ser o apego de alguém que olha para ti como uma fonte de amor, proteção, alimento e segurança? A tua consciência e intuição te levarão à verdade. Fomentar o desapego não implica perdermos as pessoas em questão. Implica sim incentivar a autonomia e o processo de emancipação emocional de cada um. Dessa maneira haverão dois seres livres e responsáveis e não dois seres imaturos que se manipulam um ao outro.

O ritual do corte do cordão umbilical assinala a nossa chegada à Terra e o início do processo de emancipação. Algures no tempo, é suposto a mãe entregar a criança à Mãe Terra que a irá sustentar e servir de apoio para percorrer o seu caminho. O pai deverá religá-la ao Pai Céu a quem irá buscar orientação e os sinais de como percorrer o caminho e cumprir a sua viagem. O processo de maturidade não implica perder ou deixar pessoas para trás. Implica apenas libertarmo-nos de dependências interiores que temos que nos fazem acreditar que nos são essenciais quando na verdade não são..
Para as identificares, procura na tua vida onde os termos; “preciso, dependo, faz-me falta, é-me essencial, não vivo sem, X é o meu pilar, etc” possam estar a esconder apegos inconscientes. Por mais que os amemos e queiramos que estejam sempre por perto, podemos e devemos trabalhar dentro de nós a consciência de que somos seres individuais, com histórias únicas, caminhos únicos preparados interiormente para os trilhar sozinhos. Libertemos então o apego e abençoemos e desfrutemos sim da sua companhia mas em estado de liberdade pois é dessa liberdade que nasce o verdadeiro amor.

Bem hajas!
Vera Luz

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